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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

'O Vinho é que Instrói' é o Pregão Cada Vez Mais Certo


Prémios de perder de vista, Lisboa menina e moça no top do turismo, a Invicta idem, o país vai mal mas é fancy, chic, trendy, e outros tantos adjectivos em itálico e a boa vida que por cá se parece ter é laidback, apesar de tudo. E "apesar de tudo" são os modos em que tentamos (pelo menos eu tento) levar uma vida descontraída e com prazeres que nos façam felizes. Aí o vinho é rei e senhor e o que é certo é que o vinho é uma herança forte no nosso país e eu, como patriota que sou, desde que comecei a apreciar este néctar sempre o quis conhecer melhor. Para meu gáudio, o falatório todo fez saltar ferramentas muito fixes, entre guias e app's, que facilitam esse ébrio reconhecimento. Sou particularmente fascinado pela "regionalidade" do vinho e pelo facto de ser transversal ao Dom na herdade e ao Zé na taberna, despertando uma curiosidade que me levou a descobrir que a região vinícola demarcada mais antiga do mundo é portuguesa, com certeza.

Decretada pelo Marquês de Pombal, em 1756, a Região Vinhateira do Alto Douro é única nas virtudes do solo xistoso aliado à exposição solar privilegiada, com as características ímpares de uma paisagem cultural, rodeada de montanhas que lhe dão as características mesológicas, climáticas e perlimpéupéu particulares desta região e tal.

Embora esse seja imprescindível o milagre científico, o que me cheira a vinho é o trabalho árduo do homem do Douro, grande conhecedor do produto de excelência que tem uma origem tão humilde nesta terra. com mãos calejadas e pernas manchadas da uva. 

Na paisagem do alto douro vinhateiro, património da UNESCO desde 2001, que reúne o carácter único do território à relação natural da cultura do vinho com a oliveira e a amendoeira, a parte que toca ao homem torna-se óbvia na construção dos muros em xisto, que prolongam as encostas e a autenticidade do cenário de uma das regiões vinhateiras mais aclamadas do mundo, a mais antiga.

A Região Demarcada do Douro é onde se produzem os vinhos correspondentes às denominações de origem D.O.C. Porto e D.O.C. Douro e estende-se por 22 concelhos, o que corresponde a 250 mil hectares. 24 mil desses hectares são agora classificado pela UNESCO como Património Mundial, sendo a zona classificada uma fiel representação da diversidade do Douro, com as suas sub-regiões do Baixo Corgo, do Cima Corgo e do Douro Superior, criando medidas de ordenamento e gestão do território e de qualificação e valorização ambiental muito bem-vindas para o território. Esta classificação intensificou o tráfego fluvial de barcos de cruzeiro para turistas, as quintas, antes privadas e cerradas ao mundo, abriram as portas às Rotas do Vinho do Porto, o comboio histórico regressou à Linha do Douro e os desportos náuticos passaram a ser uma constante nas águas fluviais. Parece-me prova suficiente que o vinha faz bem à saúde.

O mundialmente célebre vinho do Porto, cujas origens remontam à segunda metade do século XVII, altura em que a iguaria começa a ser produzida e exportada em quantidade, especialmente para a Inglaterra, tem sido alvo de adulteração em vários momentos na história, tendo sido criadas várias formas de proteger esta região, antes do largo contributo da UNESCO, como a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, criada em Setembro de 1756, que promoveu a colocação de mais de 300 marcos pombalinos, que delimitavam a região, ou seja, o tão aclamado momento histórico em que foi demarcada a primeira região vinhateira no mundo.

Graças à constante atenção dada a este ouro português, é possível hoje apreciar, com qualidade, 'várias variantes' (tropeça a língua) do vinho do Porto, como o Lágrima, um branco que pode ser seco, doce ou muito doce e que chega ao mercado depois de três anos de estágio, o Ruby, um tinto também amadurecido, tradicionalmente, por três anos, o Tawny, que envelhece cerca de 5 anos em cascos de carvalho antes de chegar a garrafa, os de Estilo Vintage, que podem ser apreciados logo após o engarrafamento, os Crusted, envelhecido em casco durante 2 ou 3 anos e por mais 3 ou 4 em garrafa, antes de ser consumido e ainda os premium Late Bottled Vintage, que resultam apenas de colheitas de boa qualidades passa entre 4 a 6 anos em cascos antes de ser engarrafado e os Real Vintage, que nem todas as vindimas podem gerar, uma vez que são resultado de uma reunião de excepcionais condições climáticas que permitem maturações ideais em anos de excelência.

Seja por este afamado Vinho do Porto ou pelos mais recentemente reconhecidos vinhos de mesa de grande qualidade, o rio Douro e os seus afluentes, os muros de xisto, suportam alas de videiras carregadas com cachos de uva branca ou tinta, verdadeiro símbolo da região, que não só alteraram a paisagem como o ritmo da vida dos durienses, com Inverno calmo, uma primavera e verão cheios de vida e actividade dos visitantes, que dão lugar à azáfama das vindimas, no outono, com o descer e subir de cestos e tesouras de poda, nas encostas repletas com os árduos trabalhadores durienses.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Êxtase Urbano na Fábrica 22

Sempre tive a sensação que nunca há um sítio decente para nos divertirmos perto da zona onde vivo. São sempre os mesmos bares e as mesmas ruas, ainda com o seu encanto, mas sem nada de novo para dar, ou então aqueles sítios que sabemos que existem, mas que ficam fora do orçamento. Foi por isso que foi quase um choque de surpresa conhecer a Fábrica 22, um grande centro urbano de atividades indoor, com 2.000m2 divididos em dois andares, onde cabem os mais variados elementos de diversão, a um preço que considerei bastante acessível e logo ali em Alvalade, na Rua João Saraiva e no número que dá nome à fábrica, onde antigamente se faziam bolos

De manhã à noite (10h ás 24h), os praticantes ou aspirantes do Skate têm à disposição a zona de Bowl e a zona de Street, com diversos obstáculos para todas as dificuldades, com direito a escolinha e tudo, num espaço que foi originalmente montado para os campeonatos promovidos pela Converse. No entanto, se as rodas não forem o forte do visitante (o meu caso), o dia ainda se pode tornar muito produtivo para o bem-estar físico com os programas de resultado a curto prazo de Bootcamp, num espaço com condições únicas. Quem quiser adicionar uma dose de ritmo também pode usufruir de umas aulas de dança, desde Hip Hop e Ragga a Contemporânea e Ballet.

A razão que me levou à Fábrica 22 valeu bem a pena. O LaserTag já não é nada daquilo que me contavam, em que se tinha um colete que pesava uma tonelada, com um ambiente mal criado e uns fones por onde eras avisado que já devias ter caido. Este LaserTag usa o sistema mais avançado do mundo, utilizado para o treino das Forças Especiais Americanas, com réplicas de armas e equipamento real e ainda com um sistema de choques elétricos para quem é atingido. Isto tudo melhora exponencialmente com um ambiente muito bem concebido, desde o laboratório nuclear, passando pelo labirinto urbano, à floresta com pinta de Vietname. Tudo isto com um ambiente sonoro que só dá um empurrãozito à frenesim de adrenalina, num jogo de equipas de 4 para 4.
Mas à mais rodas para além das do skate nesta fábrica, afinal é lá dentro que está a primeira pista de karts eléctricos em Portugal, com 420m2 de pista de drift, ambientada num verdadeiro cenário urbano, com os grafittis dos artistas convidados pela converse, que deteve o espaço antes da Fábrica 22. Para quem não está para se mexer tanto ainda há uma zona gaming, com consolas PlayStaition 4 e 3, Wii e Xbox, mas também com coisinhas mais clássicas, como matraquilhos, snooker, simuladores de condução e dardos.
Tanta actividade talvez dê alguma sede e uma certa vontade de relaxar... Os anfitriões pensaram nisso e criaram também uma zona de bar, com espaço interior e esplanada, que tem as condições ideais para acolher concertos, teatro, dança ou exposições, a cereja no topo do bolo que decora um espaço verdadeiramente urbano, multi-cultural, multimédia, multi-activo e multi-tudo, ideal para quem se queixa de não ter nada que fazer.

Fica aqui um pequeno teaser da única actividade que tive o gosto de fazer, por enquanto, na Fábrica 22.
Todos os direitos de multimédia pertencem a: Fábrica 22.



terça-feira, 5 de agosto de 2014

O folklore escondido de Portugal em 'Breviário das Más Inclinações'

Este título foi irresistível para mim "Breviário das Más Inclinações", peguei no livro e virei-o para ler a contra-capa e o que li convenceu-me de imediato a levá-lo comigo para poder andar lá pelo meio das páginas. 

"'Depois de se ter deitado com um homem, lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem.' Assim começa este romance que narra a vida e a morte (aos 33 anos, como Jesus) de José de Risso, um homem de virtude que nasceu marcado nas costas com um sinal em forma de folha de carvalho. Pelo meio há o enorme lobo de Espadañedo, um lobisomem que descia da serra quando a Lua lhe estava de feição; há receitas de chás e de tisanas que curam do mau-olhado, da má-sina com as mulheres, dos amores infelizes, das galhaduras, dos maus pensamentos; há chás e tisanas que fazem recobrar os ímpetos aos homens; há também Purísima de la Concepción, a muito bonita e alegre viúva galega, de quem se dizia (sem se ter a certeza) que encomendara a morte do marido a um matador de touros andaluz a quem as mulheres casadas chamavam, com disfarçado fervor e muita paixão contida, Niño del Teso; há um circo de Saltimbancos com uma cigana de asas brancas que voa nua por cima do pátio da escola; há uma professora da Primária, muito nova e muito bonita, de quem se dizia que gostava de mais dos meninos; há refugiados espanhóis fugidos à Guerra Civíl que começou no dia de S. Camilo; há ricos contrabandistas de volfrâmio; há curas e milagres; há o fiel Lázaro, o cão; há uma mulher contorcionista que deita espuma verde pela boca; e há muito mais de um Portugal que lentamente vai desaparecendo. Traduzida em vários países, Breviário das Más Inclinações foi a obra que consagrou a internacionalização de José Riço Direitinho", foi o presságio da magia obscura do folklore português que encontrei nas traseiras daquele livro 

Talvez tenha sido a partilha do nome do autor com o personagem principal, José de Risso, que levou José Riço Direitinho a explorar a oculta história deste curandeiro popular, quase santificado, que nasceu com um sinal em forma de folha de carvalho nas costas. Este sinal é marca mais forte da sua sina, que se raiava de vermelho e chegava a sangrar cada vez que José de Risso punha em prática os seu condão milagreiro. Só sabemos que o curandeiro viveu entre 1923 e 1956 e morreu com a idade de Jesus. Quanto a Vilarinho dos Loivos, só sabemos que é uma aldeia raiana algures no noroeste de Portugal, com a sua existência fruto da ficção do autor, que deixa a localização exata ao imaginário de cada leitor.

O rapaz que protagoniza a história era, para todos os efeitos, um orfão. A sua mãe morreu no parto e o pai, caixeiro-viajante, só apareceu uma vez para plantar a semente na mãe ainda jovem e deslumbrada pela liberdade que experimentou naquela noite de bailarico na eira, na época da desfolhada. José vivia com a avó, que lhe ensinou uma boa dose da parte técnica de ser curandeiro, embora esse dom lhe corresse nas veias. Esse dom é tão vasto que não se pode dizer que José de Risso seja apenas um curandeiro nato, já que a força desta maldição ou benção, cada um que o interprete, é tanta que o rapaz a usa inconscientemente ao sabor dos seus humores, curando milagrosamente ou destruindo de forma implacável.

"Breviário das Más Inclinações" foi editado pela primeira vez há 20 anos, mas só recentemente encontrei esta reedição da Quetzal, sem a qual nunca teria conhecido este saboroso conto, escrito em linhas de um sobrenatural muito ténue, densamente mascarado com rasgos de uma tradição tão genuína que já nem os portugueses de hoje conhecem, mas com a qual inconscientemente se identificam. Pelo menos, esse foi o meu caso.


terça-feira, 25 de março de 2014

Boneface e os Novos Ídolos

"Hero Eater"
Depois do meu último post fiquei a pensar que devia ter mencionado o excelente art-work à volta do álbum "...Like Clockwork" dos Queens of the Stone Age. O material é muito bom e já me tinha chamado a atenção, mas não sabia nada sobre o artista. Fiz umas pesquisas com o objectivo de editar o post, mas o que encontrei merecia o seu próprio tempo de antena.



Não é que um tipo lá do Reino Unido, conhecido como Boneface, anda a fazer umas coisas engraçadas? É sim. Alguns já deram ao seu estilo o nome de action-gore, se bem que esse título me parece um pouco redutor. Parece-me a evolução natural da Pop Art e as suas influências da banda desenhada. Um Andy Warhol que foi modelado por outras influências. O artista, com certeza, não gostaria muito desta comparação, já que todos gostam de reconhecimento próprio. Mas digo isto pela forma como funde vários estilos de Comic com as cores berrantes da Pop Art e os ídolos e temas da sua geração, ligeiramente Geek, mas não o suficiente para se limitar a esse nicho. se bem que vivemos em tempos pós glória do Hip-hop, a que eu baptizei de "geek uprise", mas em relação a esse assunto, eu talvez tenha coragem de desenvolver noutro post menos sério. 

"Enemy"
Revejo-me nas influências de Boneface: X-men, Batman, Ironman, Tartarugas Ninja, GTA, Assassins Creed, e outros tantos heróis e vilões da televisão, videojogos e cinema xunga dos nossos tempos, em situações de declínio e que espelham o lixo da sociedade actual, sendo a banalização da violência o mais presente. O que parece certo é que Boneface não tem medo de chocar e só tende a crescer. Começou a divulgar o seu trabalho em 2009 e já colaborou várias vezes com marcas de roupa, campanhas de publicidade, cinema e videojogos. O próprio artista considera que o maior projecto que teve até agora foi o trabalho junto dos QOTSA, a primeira vez que os seus desenhos viraram animados.

Para resumir este autor e o seu trabalho, nada melhor que as suas próprias palavras: "Aquilo que me faz a pessoa certa para este trabalho é provavelmente a que me faz a pessoa errada para qualquer outro", e sobre a sua arte diz, "Imaginem o que aconteceria se misturassem um tubo da TGRI com uma gota dos Oozes do Ivan e um pouco da poção do Judge Doom, e derramassem a mistura em alguém. Bem, imaginem isso e ponham-lhe uma máscara." Com muitas referências ao universo das Tartarugas Ninja com uma pitadinha do de Roger Rabbit. Postei aqui umas favoritas, mas não há como ir à fonteConcluo com a esperança de que o Boneface continue a receber lavagens cerebrais de lixo televisivo, que no caso dele resulta bem.


A bisnaga mata-me

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Altas Ondas para o Trafaria Praia

Chegada à Bienal de Veneza
O projecto intitulado “Trafaria Praia”, de Joana Vasconcelos, foi o pavilhão mais visitado da Bienal de Veneza. Cerca de 60.000 pessoas já visitaram a embarcação que foi criada pela artista para representar o nosso país na 55ª edição desta exposição internacional de arte. Como conhecedor deste velho cacilheiro, louvo a artista por ter respeitado a história do navio, como o seu nome e as suas cores, e ainda o ter elevado a obra de arte. O cacilheiro vai estar em “La Sereníssima Cittá da Venezia” até ao final de Novembro.

O cacilheiro, que para além de ter o papel de pavilhão representante de Portugal é uma obra de arte em si, exibe a toda a sua volta um painel de azulejos que foi mostrar ao mundo a frente ribeirinha de lisboa, da barra ao estuário, apresentando um grande panorama da cidade vista do rio. O seu interior foi revestido a cortiça nos níveis superiores e é composto por peças no mesmo material. No convés foi criada uma atmosfera uterina, a lembrar o fundo do mar, com têxteis interligados num extenso patchwork com vários tipos de ponto, com diversas formas, em tons de azul, com LED’s incorporados na sua malha. A larga varanda do piso superior recebe a maioria dos eventos, como vários concertos e debates, onde já cantou a artista portuguesa, Ana Moura. O impacto da obra foi tal que a editora Babel já publicou o livro “Joana Vasconcelos: Trafaria Praia”, onde é explicado que o projecto analisa a relação histórica entre Portugal e Itália, que se desenvolveu através do comércio, da diplomacia e da arte e que as duas cidades desempenharam papéis fundamentais na expansão da visão do mundo europeia durante a Idade Média e o Renascimento, redefinindo a imago mundi através do estabelecimento de redes entre o Ocidente e o Oriente.


Para além disso, a projecção que este projecto trouxe à já emblemática carreira de Joana Vasconcelos, que é conhecida por transformar símbolos populares portugueses em peças completamente modernas, usando objectos do quotidiano. Joana teve recentemente, no Palácio de Queluz, uma das exposições mais visitadas do país nos últimos anos, levou-a a abraçar um novo projecto. Joana Vasconcelos quer inaugurar uma fundação que reúna as suas obras e as obras de outros aritstas com que colaborou, assim como criar bolsas de estudo para estudantes de arte. Com esta fundação, a artista quer atingir o estatuto de organização de utilidade pública, tendo que, para isso, ter um funcionamento efectivo e relevante durante, pelo menos, três anos.

Velho Cacilheiro
“Os cacilheiros são barcos que ligam as duas margens do rio Tejo. Como o próprio nome indica, partem de Cacilhas, em Almada, com destino a Lisboa. Outrora, existiram barcos cacilheiros que partiam do Seixal, Montijo, Barreiro, Trafaria e Porto Brandão, actualmente substituídos pelos modernos Catamarans. Todos estes barcos pertencem às empresas Transtejo e Soflusa. Até à construção da Ponte sobre o Tejo (inaugurada a 6 de Agosto de 1966) era a única ligação entre as duas margens do Tejo, em Lisboa”. Esta é a descrição que se pode encontrar no maior aglomerador de factos da internet, mas que nem sempre estão correctamente apurados, o Wikipedia. O Cacilheiro sempre transportou, maioritariamente, habitantes da Margem Sul que trabalham em Lisboa, tornando-se assim num ícone da classe operária e da classe média, ganhando com os anos o estatuto de atracção turística. Os clássicos Cacilheiros, como o Trafaria Praia, há muito que foram substituídos pelos seus irmãos mais modernos na travessia entre Cacilhas e o Cais do Sodré. Os Catamarans só chegaram para acelerar as travessias mais longas, pelo estuário, até ao Barreiro, Seixal e Montijo. A travessia Belém-Porto Brandão-Trafaria é que foi a última a ser actualizada e só disse adeus aos clássicos, definitivamente, em 2009.

Foi nessa travessia que o Trafaria Praia fez as suas últimas carreiras, até 2008. Juntamente com os irmãos gémeos, o Mouraria, o Marvila e o Castelo, que foram construídos em estaleiros alemães e fazem parte de uma série de 5 navios, formam a equipa dos clássicos. O Mouraria continuou a zarpar de Belém até 2009, O Trafaria Praia este encostado até á sua famosa recuperação, o Marvila faz passeios no Tejo mas também dá as últimas, o Castelo faz passeios no Douro com outro nome e o quinto não consegui apurar nem o nome nem o que foi feito dele. Sei que há um barco, dos mais antigos, que foi transformado em restaurante e está no Seixal, mas não consegui saber o seu nome. Os irmãos do meio, que entraram ao serviço em 1980, são os navios Campolide, Dafundo, Palmelense, Seixalense e Sintrense, que pertencem à Classe Cacilhense. Foram construídos pelo Estaleiro FOZNAVE, na Figueira da Foz, pelo Estaleiro Argibay, em Alverca e pelo Estaleiro Naval de São Jacinto e têm capacidade para 476 passageiros distribuídos por quatro salões com instalações sanitárias. A partir de 2003 entraram para a frota os irmãos mais novos, os Catamarans Damião de Goes, Augusto Gil, Miguel Torga, Fernando Namora, Gil Vicente, Jorge de Sena, Almeida Garrett, Fernando Pessoa e Antero de Quental, assim como o Fantasia, que só faz passeios turísticos e é o único que tem um espaço ao ar livre aberto aos passageiros.

Sempre gostei de viajar nos Cacilheiros clássicos. Quando comecei a estudar em Lisboa dava por mim a voltar para casa pelo caminho mais demorado, só para evitar os barcos da classe Cacilhense, e ir por Belém, para poder fazer a viagem no Trafaria Praia ou no Mouraria. Embora o meu destino fosse a Trafaria, devido aos horários muito espaçados demorava sempre mais tempo do que se fosse por Cacilhas, mas já que perco tanto tempo em viagens entre Margem Sul e Lisboa, gosto de o fazer com qualidade. A recuperação do Trafaria Praia pela artista Joana Vasconcelos alegrou-me pela transformação de um barco que sempre gostei em obra de arte. Mas entristeceu-me pensar que o objectivo das empresas de transportes públicos têm, cada vez mais, os seus serviços optimizados para o lucro e para enfiar o maior número de passageiros possível dentro dos seus transportes e, cada vez menos, para a qualidade das viagens. Sempre fui contra o fim do funcionamento dos cacilheiros mais antigos, que proporcionavam uma viagem muito mais bonita, agradável e confortável, mas entendi que já não teriam condições para fazer carreiras. Agora vejo que a sua recuperação é perfeitamente possível e que podem ficar ainda melhores do que seriam. Não digo que todos fossem transformados da mesma forma que o Trafaria Praia, que se trata de um contexto muito específico, mas a sua reabilitação para voltar ás carreiras seria do agrado de todos os utentes, até porque as travessias entre Belém e a Trafaria são mais longas e, por isso, permitem disfrutar da viagem enquanto passeio e não só como deslocação. Para além disso, o volume de passageiros nessa carreira não justifica a optimização da frota para transportar um vasto número de passageiros. Infelizmente para os utentes, as implicações económicas não permitem esse tipo de progresso, e assim, o velho Cacilheiro é elevado a atracção turística ou artística, não tirando o mérito a quem o recupera nesse sentido, mas fica fora do alcance de quem mais o usou, os passageiros.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A Rainha das Romarias


Ao alto bombos!/as ruas cheias de flores/pelos becos vão gentes amansando suas dores/todos renegados, aturdidos/sem certezas/é esta a nossa hora/luzia vianesa” canta Jorge Cruz. A letra é da canção “Luzia”, dos Diabo na Cruz, mas a musa é a Romaria à Sra. D'Agonia. Hoje é o ponto mais alto desta festa, que é a maior de Viana do Castelo, a Solene Eucaristia no adro da Capela da Senhora d'Agonia, seguida da Procissão ao Mar.


A tradição mantém-se este ano, feiras e arraiais vão de mãos dadas com a devoção religiosa, e a festa arrancou dez dias antes do seu culminar, com a abertura da feira de artesanato, no jardim da Marginal. No dia seguinte, os mais devotos começaram a rezar a novena em honra da Senhora d'Agonia, que termina no dia anterior à Procissão ao Mar. No feriado de 15 de Agosto foi feita a trasladação das imagens do Senhor dos Aflitos e de Nossa Senhora da Assunção, da Igreja da Ordem Terceira e da Sé Catedral, para a Igreja de S. Domingos. A romaria começou oficialmente no dia 16, com o Desfile da Mordomia. O ouro sai dos cofres e adorna os peitos das mais respeitáveis senhoras, como manda a tradição, por cima dos trajes que representam, em rigor, as freguesias da foz do Lima e os diferentes trabalhos tradicionais.


No sábado há uma enchente nas ruas para ver o cortejo histórico-etnográfico, um dos pontos altos da festa. venida dos Combatentes da Grande Guerra tranforma-se numa espécie de sambódromo muito português, enquanto desfilam carros alegóricos com motivos culturais de Portugal, de Viana e do Minho. Gigantones, cabeçudos, vinho verde e grelhadores a crepitar, cheios de carne, peixe e enchidos, vêm misturados com os carros alegóricos, as mulheres exibem os trajes e o ouro e o povo aplaude, o tema é “A Caravela do Mar”. À noite é o Fogo do Meio ou da Santa, aliás, todas as noites há fogo de artifício, com destaque para a Serenata, no Domingo, quando a ponte velha se enche de luz e de som, com as cores dos foguetes, no mesmo dia em que segue a Procissão Solene da Senhora D'Agonia. A festa continua até hoje, dia 20 de Agosto, feriado municipal. Durante a noite fizeram-se os tapetes de flores que se podem admirar nos próximos dias, pelas ruas da Ribeira.

Os moços que riem nos barcos/não vieram pela santa/vão descalços/têm tanto a esquecer”

A procissão ao Mar é o ponto mais alto da Romaria da Senhora D'Agonia. A Rainha das Romarias tem origem na Via Sacra do Convento Franciscano de Santo António ao antigo morro da forca, onde se construiu a Capela do Bom Jesus do Santo Sepulcro em 1674. A imagem da Senhora d'Agonia chega á Capela em 1751, dando início á devoção por esta figura. Em 1783 a Sagrada Congregação dos Ritos deu licença para que todos os anos se celebrasse nesta Capela, no dia 20 de Agosto, uma Missa Solene. Desde então este dia é feriado municipal na cidade de Viana do Castelo. Em 1861 já a Romaria era maior que a festa religiosa. No início do século XX entram para a romaria a Festa do Traje e a Parada Agrícola, que é hoje o desfile etnográfico. Sendo uma terra tradicionalmente piscatória, seria natural que a procissão da padroeira da cidade se estendesse até ao mar, como veio a acontecer. Há anos que os pescadores, na véspera do feriado municipal, enfeitam e embandeiram os barcos para levar os andores com as imagens da padroeira e dos santos mais adorados em Viana.

A festa conta com as revistas dos gigantones e cabeçudos, na Praça da República. Todas as manhãs se acorda ao som dos morteiros, os dias seguem com o ribombar das caixas e bombos dos Zés P'reiras, que entram em competição, só para ver quem faz mais barulho. Todas as noites, depois do fogo, os jovens acorrem aos bares da Praça da Erva e ao Anfiteatro do Jardim da Marina, onde decorre o Arraial Superbock, que dura até de madrugada, com boa música e muita cerveja, refrescando quem passou o dia ao Sol, a ver passar o Cortejo ou a acompanhar a Procissão. 

Hoje acaba mais uma Romaria, mas tudo garante que a tradição nunca vai morrer.